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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

SOFRIMENTO COMO CAMINHO



Imagine, por exemplo, tentar se livrar do desejo e apego por alguém que achamos atraente, continuando a se apegar nas suas qualidades atraentes. Todo esse esforço seria em vão. Da mesma forma, se nos concentrarmos apenas na dor do sofrimento, nunca poderemos desenvolver resistência ou capacidade de suportá-lo. Assim, como indicado nas instruções chamadas “Selando as Portas dos Sentidos”, não se feche em todos os tipos de conceitos produzidos pela mente sobre o seu sofrimento. Em vez disso, aprenda a deixar a mente tranquila em seu estado natural, trazendo a mente para casa deixando a descansar lá e deixe-a encontrar a sua própria base.
- DODRUPCHEN JIGME TEMPE NYIMA (1865-1926) -  Utilizando a Felicidade e Sofrimento como caminho para a Liberação

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

DESCOBERTA


É muito importante, quando estamos seguindo um ensinamento, particularmente Dzogchen, entender o que "Dzogchen" realmente significa. Caso contrário, mesmo que passe ano após ano, sempre permanecemos no mesmo ponto.
 
Nós dependemos de nome e forma, mas estamos continuamente nos iludindo porque não correspondem ao sentido real. Um professor Dzogchen nunca pede para você aceitar ou mudar nada. Um professor de Dzogchen só pede que você observe a si mesmo para que possa descobrir sua verdadeira natureza. Se você descobrir sua verdadeira natureza, quem se beneficia é você, não seu professor. O professor tenta fazer você entender, dando ensinamentos.
 
Nós dizemos que o professor está trabalhando com o aluno para que ele ou ela entendam. Esse é o verdadeiro ensino. É assim que funciona. Então, mesmo se nós só estivermos praticando o ensinamento em um curto período de tempo, ele faz sentido. Se você ainda não descobriu a sua verdadeira natureza e potencialidade, talvez por este princípio, você pode descobrir por si mesmo um dia.
 
Embora o professor dê vários métodos de modo a ter diferentes experiências, primeiro precisamos de conhecimento, a compreensão do que significa estar em nossa verdadeira natureza. Temos de descobrir, caso contrário, não podemos entender esse estado. Este é o primeiro passo. Depois disso, temos de perceber o conhecimento de modo que se torna real, porque, embora, por vezes, a experiência é real, e pode ser algo relacionado com a nossa verdadeira natureza, ainda vivemos em um estado com as nossas visões dualistas e conceitos de sujeito e objeto, e possuem uma infinita potencialidade de carma negativo.
- NAMKHAI NORBU RINPOCHE -  Dzogchen Teachings 



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

MENTE E CÉREBRO


Eles (cientistas) podem observar e provar e medir até encontrar fatos sobre a atividade cerebral, mas como eles irão saber o que a mente está experimentando enquanto fazem isso? Eles podem, por exemplo, ser capazes de dizer que há muita atividade em tal e tal região do cérebro quando alguém pensa sobre a cor vermelha. Mas como eles podem saber se a pessoa está realmente pensando nessa cor? A pessoa que está sendo testada conhece certamente a natureza da experiência. E pode chamá-la de vermelho. Mas também poderia não fazer isso. Poderia não nomear nada. E nunca saberá se mais alguém  experimenta algo do mesmo modo que ela, mesmo que outra pessoa chame a experiência pelo mesmo nome. Ela poderia também chamá-la de vermelho. Mas quem poderia saber o que foi de fato experimentado senão a pessoa que experimentou? O cientista pode dizer que o cérebro está com uma atividade como se estivesse experimentando o vermelho porque ele está agindo como sempre faz quando as pessoas passam por essa experiência. Mas quem irá saber se eles estão certos ou não? Só a pessoa que fez a experiência saberá com certeza. 
KHENPO TSULTRIM GYAMTSO RINPOCHE - Progressive Stages of Meditation on Emptiness

sábado, 22 de setembro de 2012

VISÃO DO CAMINHO DO MEIO



Desta forma chegue à convicção de que todas as aparências são sabedoria primordial como ilusões, que é auto-manifesta e sem distinções. 
O elemento crucial que está implícito aqui é que, embora todas essas aparências sejam completamente vazias, da mesma forma que no sonho, existem interações causais. Porque todas as ações têm consequências, comportamentos têm consequências. As ações em si são vazias, as consequências são vazias, mas ainda assim ocorrem. Se os fenômenos fossem intrinsecamente reais, com fronteiras absolutas, realmente presentes, eles nunca interagiriam; estariam cerrados em si próprios e nada poderia acontecer, tudo seria não-relacionado. Por interagirem entre si e gerarem padrões de causalidade, por realmente se modificarem, por esta razão, eles só podem ser vazios. Pelo fato de as aparências serem vazias, elas podem interagir entre si de forma causal. Essa é a visão do “Caminho do Meio”, evitando o niilismo e evitando o substancialismo.
– ALAN WALLACE - Comentário a Texto Raiz de S.S. Dudjom Rinpoche intitulado Iluminação da Sabedoria Primordial: Um Manual de Instruções sobre o Completamente Puro Estágio da Perfeição do Poderoso e Feroz Dorje Drolö, Subjugador de Demônios

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O DZOGCHEN BÖNPO


A sabedoria que surge espontaneamente é a base.As cinco emoções negativas são energia manifestada.Ver as emoções como equivocadas é um erro.Deixá-las estar em sua própria natureza é o método.Para encontrar o estado não dual da liberação.Superar esperança e medo é o resultado.
- TENZIN WANGYAL RINPOCHE - Extraído de Maravilhas da Mente Natural: A Essência do Dzogchen na Tradição Bön Nativa do Tibete

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

ESTADO NATURAL DA MENTE



Na proporção que desenvolvemos a meditação, já não precisamos apoiar-nos em explicações intelectuais para justificar quem somos, pois a nossa auto-identidade redutora se dissipa, como o nevoeiro tocado pela luz do sol. Depois que tivermos compreendido isso, não precisamos lutar com o nosso ego e nossas emoções negativas - ou com discriminações entre o bem e o mal, o positivo e o negativo, o caminho espiritual ou a ação habitual. Dentro da experiência da meditação, a percepção espontânea surge por si mesma, e os conflitos emocionais e os problemas começam a perder seu domínio e tornam-se muito enevoados. Depois que deixamos de alimentar nossos problemas, eles desaparecem dentro da própria percepção. Durante todo esse tempo, podemos ver efetivamente que toda a natureza da mente é a nossa meditação. E, através disso, a nossa mente se torna iluminada de uma energia poderosa e preciosa, e nós vivenciamos diretamente uma compreensão indescritível e onisciente.
- TARTHANG TULKU (1934 - ) -  Extraído do livro Gestos de Equílibrio

terça-feira, 4 de setembro de 2012

APARÊNCIAS PURAS E IMPURAS



Não é possível transformar experiências impuras em puras apenas recitando um mantra a fim de mudar o fenômeno. Nem também através de substâncias especiais que possuam tais poderes, ou através de oferendas a determinados deuses que em contrapartida irão nos ajudar. Tudo isso não tem nada a ver com o Vajrayana. O que buscamos é desenvolver o entendimento que o mundo das aparências não se apresenta como confusão; é o nosso apego às coisas que nos traz essa confusão. A fim de experimentar a pureza de todas as coisas, não há mais nada a fazer senão entender que no nível relativo as coisas aparecem devido a várias condições e devido a ocorrência dependente, mas no nível absoluto elas não possuem uma existência verdadeira. Esses dois aspectos não são separados um do outro. 
Qual o significado de "aparências impuras" ou "aparências puras"? "Impuro" se refere a nossa crença que todas coisas são absolutamente reais e existem independentemente umas das outras. Crer que as coisas possuem uma existência verdadeira é uma visão extrema que não é correta porque a natureza de todas as coisas é vacuidade. Se alguém deseja reconhecer a vacuidade de todos os fenômenos não basta aceitar o que foi dito. Na verdade, seria muito difícil entender a verdadeira natureza das coisas simplesmente falando ou ouvindo sobre ela.
- JAMGON KONGTRUL III - (1954 -  1992)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O QUE QUEREMOS?



...a jornada espiritual pode ser muito complicada. Ela pode começar com grande potência, energia, intelecto, ceticismo, curiosidade, mas, pode vir a resultar em nada mais do que uma espécie de religião baseada completamente na fé cega. Esse é o principal perigo para o praticante budista. É fácil cair nessa armadilha, sem realmente nem perceber. Achamos que estamos sendo muito céticos e inquisidores. Então, de repente, encontramo-nos dentro da tradição totalmente cegos e presos em algum dogma religioso. Encontramo-nos no meio de uma grande escuridão, ainda caminhando, mas sem saber para onde estamos indo.
 
Existe uma tremenda necessidade de refletir inúmeras vezes sobre a direção do nosso caminho espiritual. Qual é a razão de estarmos aqui? O que é a motivação básica que nos trouxe a este caminho? É um interesse genuíno no despertar, na iluminação, na liberdade? Ou temos outras razões? Cada um  de nós agora então teria que lembrar do nosso propósito e motivação. Temos que voltar para as perguntas mais básicas: eu quero realmente atingir a iluminação? Estou realmente disposto a conseguir isso? Não é uma questão de como é difícil ou quanto tempo se precisa para se tornar iluminado. A questão é: será que eu realmente quero acordar deste sonho?
 
A partir da perspectiva do Mahamudra e ensinamentos Dzogchen, podemos acordar agora. Quando acordamos do nosso confuso estado de sonolência isso é a iluminação. Não há nenhuma diferença entre este momento e iluminação. A natureza de nossa mente está completamente desperta desde o início, e este estado desperto não é nada que não seja a nossa experiência comum de emoções, pensamentos e percepções.
DZOGCHEN PONLOP RINPOCHE ( 1965 - )  - www.dpr.info -  Extraído do livro Wild Awakening: The Heart of Mahamudra and Dzogchen

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

CONSELHO CRUCIAL


Não investigue a raiz das coisas,
Investigue a raiz da Mente!
Quando a raiz da mente for encontrada,
Conhecerás uma coisa apenas,
ainda assim todas as outras serão liberadas.
Mas caso falhares em encontrar a raiz da Mente,
Conhecerás tudo mas não compreenderás nada.
 - GURU RINPOCHE

terça-feira, 7 de agosto de 2012

CANÇÃO DE MARPA

   Prostro-me e rogo àqueles que são cheios de compaixão!
   Contemplando as vidas dos mestres, percebe-se
   Que até mesmo desejar mais instruções é uma distração.
   Mantenha a essência do ensinamento em segurança, no seu coração.
   Muitas explicações sem a essência
   São como muitas árvores sem frutos.
   Apesar de todas as explicações serem um conhecimento,
   Elas não são a verdade absoluta.
   Conhecê-las todas não é conhecer a verdade.
   Muita elucidação não traz benefício espiritual.
   Aquilo que beneficia o coração é um tesouro sagrado.
   Se você quiser ser realmente rico, concentre-se nisto.
   O Darma são os meios hábeis para superar a mácula mental.
   Se você quiser ser seguro, concentre-se nisto.
   Uma mente que é livre do apego é o mestre do contentamento.
   Se você quiser ser um bom mestre, concentre-se nisto.
   A vida mundana causa lágrimas; abandone a preguiça.
   Uma caverna rochosa na selva era o lar de seu mestre espiritual.
   Um lugar deserto e solitário é uma morada divina.
   A mente cavalgando a mente é um cavalo incansável.
   Seu próprio corpo é um santuário e uma mansão celestial.
   A meditação não-distraída e a ação são os melhores de todos os remédios.
   Para você que tem a verdadeira meta da iluminação,
   Eu dei esta instrução sem segredos.
   Eu, minha instrução e você -
   Os três estão em sua mão, meu filho.
   Possam eles prosperar como as folhas, galhos e frutos,
   Sem apodrecer, esparramar ou murchar.
- MARPA (1012 - 1097) 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

PERCEPÇÃO NUA


A própria consciência imediata é esta mesma realidade! Repousando nesta realidade, espontânea e naturalmente luminosa, como podemos dizer que não compreendemos a natureza da mente? Repousando nesta realidade, na qual não há nada acerca de que se possa meditar, como podemos dizer que, entrando em meditação, não somos bem sucedidos?
- GURU RINPOCHE -  Retirado de A Introdução à consciência pura: Liberação natural pela percepção nua, do Livro Tibetano dos Mortos.

terça-feira, 31 de julho de 2012

PRINCÍPIO DA MANDALA


Num contexto mais amplo, a mandala é um paradigma do funcionamento natural dos fenômenos. Enxames de abelhas decidem coletivamente sobre a adequação de novos lugares para colmeias. Famílias têm intrincados padrões de atividade e comunicação, com interconexão dos papéis. A única opção que resta de transformação, de acordo com o Vajrayana, é tomar nosso assento em qualquer lugar do mundo em que nos encontramos e o reconhecermos como uma mandala. Nossa vida só pode ser vista como uma mandala se incluir tudo, todas as qualidades positivas, bem como tudo o que gostaríamos de ignorar, rejeitar ou distanciar-nos. Esta mudança no paradigma de trabalho de como pensamos e de se relacionar é o poder transformador da mandala, e é a base do tantra como um poderoso método de meditação budista. Acentua o nosso comprometimento no contexto da experiência e sela as fronteiras sem nenhuma possibilidade de fuga, de modo que nos relacionamos com tudo plenamente.  
Normalmente somos muito espertos e fazemos todo o possível para escapar da experiência de sofrimento, de que o Buda falou de forma tão eloquente. O poder da prática Vajrayana vem dessa simples tecnologia de claustrofobia, na qual o praticante se compromete com a perspectiva da mandala. Quando experimentamos o nosso sofrimento diretamente, sem a diluição dos padrões habituais de fuga, o insight surge naturalmente. Nós podemos começar a experimentar o coração do nosso sofrimento, que é auto existente de sabedoria. O segredo é desistir de qualquer esperança de escapar do sofrimento e isso realmente abre a porta para a compaixão e ação hábil. Uma vez que a compreensão profunda do espaço, do vazio, da luminosidade é realizada, a mandala passa a ser uma expressão da dinâmica do mundo. Sem um ser supremo ou deus, tudo no mundo é uma emanação transparente, um jogo no espaço vazio.
- JUDITH SIMMER-BROWN -  Extraído de Dakinis Warm Breath: The Feminine Principle in Tibetan Buddhism 

sábado, 28 de julho de 2012

CONTEMPLAÇÃO DIÁRIA SOBRE A MORTE



De noite, quando você deixa as atividades do dia, você deve se empenhar numa série de meditações contemplativas, similares a essas:
 
"Tudo bem, logo estarei caindo no sono. Sobre quantas pessoas ouvi dizer que tinham ido dormir e nunca acordaram? Quando eu deitar minha cabeça no meu travesseiro, posso não levantar de novo. A morte não é tão complicada. É simplesmente uma questão de não conseguir respirar mais uma vez. Então estarei morto. Isto pode ocorrer comigo esta noite em meu sono".
 
Então, crítica e honestamente, olhe para a sua vida e pense: "Se eu morrer esta noite dormindo, o que fiz do meu dia? Que fiz com a minha vida? Fui de algum benefício ou causei algum dano?". Algumas vezes não é tão agradável ver o quão autocentrado e egoísta você tem sido, o quão focado no "eu, meu". Qual quer que tenha sido este o caso, você criou um carma que, em última análise, impele a mente numa direção difícil no momento da morte. É como a movimentação para frente. Se você põe algo em movimento,  continua a ir naquela direção. Se a sua mente tem se movido através de um curso negativo, quando você morrer ela continuará exatamente no caminho pelo qual ela tem se movido o tempo todo.
- CHAGDUD TULKU RINPOCHE (1930 - 2002) - Extraído do livro Vida e Morte no Budismo Tibetano. 

terça-feira, 24 de julho de 2012

NOSSAS PROJEÇÕES



Na famosa história de Milarepa, quando ele deixou sua caverna para sair momentaneamente e então voltou, descobriu que a diaba da rocha tinha entrado em sua caverna e que tinha assumido cinco emanações extremamente assustadoras. Milarepa ficou tão impressionado ao ver estas diabas em sua caverna que ele não pôde nem mesmo entrar nela. Estava cheio de terror e começou a recitar o mantra de seu yidam o mais rápido que podia, e isto piorou a situação. As diabas ficaram maiores e maiores, e então ele começou a meditar sobre sua auto-natureza como sendo o yidam, e a situação ficou pior ainda. Então ele começou a recitar mantras irados e isto também não funcionou. Finalmente, em desespero, ele se lembrou das instruções apontadoras dadas por seu lama - de que todos os fenômenos surgem da mente e que todas as aparências são apenas a nossa projeção. Então ele entrou na consciência da natureza da vacuidade, a natureza da mente, e imediatamente as diabas se foram - desapareceram. Esta é a história muito conhecida de Milarepa eliminando a demônia da rocha de sua caverna, de uma vez por todas. 
Até realizarmos que os fenômenos são as projeções da mente, então poderemos esperar que, a qualquer lugar aonde irmos, sempre haverá demônios, espíritos e problemas. É por isto que Milarepa ensinou que, se acreditamos na existência de um espírito externo, então ele será prejudicial; é através de nossa crença de que há um espírito existente que o dano é produzido por esse espírito. Por outro lado, se entendermos que isto é apenas a exibição da mente, então o demônio será eliminado e o dano, ou circunstâncias não-condutivas, serão evitados. Realizar a natureza vazia da mente é o significado do Chöd; rompendo ou cortando completamente o conceito errôneo, estaremos livres do dano. Se não formos capazes de praticar o Chöd, então muitos obstáculos e doenças serão experienciadas, assim como desvios sobre o caminho, porque a nossa própria mente será o demônio. Se realizarmos a natureza da mente, então o demônio imediatamente se transformará no yidam e ele dará os atingimentos espirituais. Isto é totalmente dependente do reconhecimento da exibição da mente. Se não pudermos reconhecer os fenômenos como o jogo da mente, e se considerarmos os fenômenos como sendo verdadeiros em si mesmos, então os espíritos aumentarão e continuarão aumentando.
- YANGTHANG RINPOCHE

sábado, 21 de julho de 2012

INTERDEPENDÊNCIA NAS RELAÇÕES



Nosso erro é termos esse amor no início, o amor mútuo entre mãe e filho, mas gradativamente, com o passar do tempo, começar a dar cada vez menos valor e até passar a ver como algo desnecessário. Pensamos que podemos cuidar de nós mesmos e que não precisamos depender de mais ninguém. Embora nossa independência presumida seja um sonho vão, nos sentimos orgulhosos de nós mesmos, audaciosos e confiantes. Então, em vez de sentir amor pelos outros, começamos a sentir ciúme deles e tentamos prejudicá-los e explorá-los. Isso leva a todo tipo de infelicidade na sociedade e desgraça para nós como indivíduos. Podemos sentir como se não houvesse ninguém em que pudéssemos confiar e ninguém de quem pudéssemos realmente depender, e começamos a nos sentir isolados dos outros, separados e sozinhos. Contudo, essa situação é inteiramente criada por nós. Ela vai de encontro à nossa verdadeira natureza como seres humanos. É toda ela baseada em nossas experiências artificiais. 
- XIV DALAI LAMA -  Extraído do livro Mente em Conforto e Sossego -  A visão da iluminação na Grande Perfeição

quarta-feira, 18 de julho de 2012

EMOÇÕES NEGATIVAS



Como o samsara de manifesta? O que quer que percebamos ao nosso  redor com nossos cinco sentidos, todos os tipos de sentimentos  de relação e repulsão, se formam em nossa mente. Não são as  percepções em si que nos mantém no ciclo de existências, mas sim  o modo pelo qual reagimos a elas e o modo pelo qual as interpretamos.  É nisso que o Vajrayana nos dá meios extraordinários para não  perpetuar o samsara: ele nos mostra como perceber os fenômenos  como sendo a exibição pura da sabedoria. 
O ódio ou a raiva que possamos sentir por alguém não são inerentes  àquela pessoa. Eles existem apenas em nossa mente. Assim que vemos  o nosso inimigo, nossos pensamentos se fixam na memória do mal que  ele fez para nós, em seus ataques presentes e naqueles que poderá  fazer no futuro. Nos tornamos irritados a ponto de não sermos mais  capazes de suportar o som de seu nome. Quanto mais liberdade nós  damos a estes pensamentos, mais a raiva irá nos invadir e, com ela,  a vontade irresistível de pegar uma pedra para lhe jogar, ou de  um bastão para lhe bater. Deste modo, um simples instante de raiva  nos conduz ao paradoxo do ódio. 
O ódio parece muito poderoso para vocês, mas de onde ele tira o  poder de dominá-los a esse ponto? É uma força externa, com braços  e pernas, armas e guerreiros? Ou é uma força interna, que está  dentro de vocês? Se esse for o caso, vocês podem identificá-la em  seu cérebro, em seu coração, ou em alguma parte de vocês? 
Apesar de ser impossível de localizá-lo, o ódio parece ter uma  presença muito concreta que tende a amarrar a mente, a  solidificá-la, e desse modo a desatrelar todo um processo de  sofrimento para vocês e para os outros. Assim como as nuvens que,  apesar de serem insubstanciais para suportar o menor peso, podem  encobrir o céu e o sol, do mesmo modo os pensamentos podem  obscurecer a radiação da consciência iluminada. Reconheçam a  vacuidade da mente, sua transparência, e ela retornará por si mesma  ao seu estado natural de liberdade. Reconheça a vacuidade do ódio e ele perderá seu poder de fazer o mal. Ele se tornará a sabedoria que é como o espelho.
- DILGO KHYENTSE RINPOCHE - (1910 - 1991) 

sábado, 7 de julho de 2012

NADA SEI


O estudante Doko dirigiu-se ao mestre e disse: em que estado da mente devo procurar a verdade?

O mestre respondeu: não há mente, portanto você não pode colocá-la em nenhum estado; e não há verdade, portanto não pode procurá-la. 
Doko falou: se não há mente nem verdade, por que todos esses estudantes se juntam diante de você todos os dias para estudar?
O mestre olhou e disse: não vejo ninguém.  
O discípulo perguntou: então, a quem você esta ensinando?  
Não tenho língua, então como posso ensinar? Replicou o mestre. 
Doko disse tristemente:  não posso acompanha-lo; não posso compreendê-lo. O mestre disse: eu não entendo a mim mesmo.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

BUDA DIANTE DA TELEVISÃO



É pouco provável que todos vocês possam realizar um retiro tradicional, mas se vocês tiverem fé e confiança e aplicarem-se com ardor à  purificação e à acumulação, assim como à meditação do mahamudra, vocês  poderão compreender o que este é. 
Quando sabemos verdadeiramente praticá-la, a meditação do mahamudra é extraordinariamente fácil. Na Índia e no Tibet, dizia-se que era tão  fácil a ponto de permitir atingir o estado de Buda enquanto se  fiava a lã, ou enquanto se governava um reino, ou enquanto se  trabalhava no campo. Guarda-se a lembrança de numerosos praticantes  que atingiram a liberação continuando a levar uma vida comum; alguns eram fazendeiros, outros oleiros, outros alfaiates e etc. 
Se, durante o retiro de três anos, vocês puderem desenvolver uma boa experiência do mahamudra, poderão, depois do retiro, se assim o  desejarem, tornar-se homens de negócios gerindo milhões de dólares a cada hora do dia. Ou ainda, se preferirem, poderão estritamente não fazer nada, ficar como Milarepa, comendo urtigas e atingir o estado de Buda desta maneira. 
O mahamudra não implica deidades sobre as quais meditar, nem mantras  para recitar; a mente permanece em si mesma sem nenhuma distração, sem nada a criar ou fazer, no reconhecimento de sua essência. Se vocês souberem meditar desta forma, talvez seja possível acrescentar uma  outra possibilidade às circunstâncias que permitem atingir o estado de Buda: tornar-se Buda assistindo televisão. 
Quando praticamos o mahamudra não é preciso rejeitar as emoções conflituosas. Elas aparecem e desaparecem por elas mesmas, naturalmente. O mahamudra é tão potente que se diz que ele rasga o samsara em farrapos.
- KALU RINPOCHE - (1905 - 1989)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

MEDITAÇÃO SOBRE A IMPERMANÊNCIA


Um discípulo leigo perguntou a Geshe Potowa qual seria a prática do Darma mais importante, caso fosse necessário escolher apenas uma. O geshe respondeu:

Se você quer usar uma única prática do Darma, meditar sobre a impermanência é a mais importante. No início, a meditação sobre a morte e a impermanência faz com que você comece a praticar o Darma; depois ela lhe conduz a agir com positividade; e, no fim, ela lhe ajuda a consumar a igualdade de todos os fenômenos. 
No início, a meditação sobre a impermanência faz com que você corte os laços com as coisas desta vida; depois, ela lhe conduz a eliminar todo o apego ao samsara; no fim, ela lhe ajuda a adotar o caminho do nirvana. 
No início, a meditação sobre a impermanência faz com que você desenvolva a fé; depois, ela lhe conduz a diligência na prática; no fim, ela lhe ajuda a gerar sabedoria.No início, até que você esteja completamente convencido, a meditação sobre a impermanência faz com que você procure pelo Darma; depois, ela lhe conduz à prática; no fim, ela lhe ajuda a atingir o objetivo último. 
No início, até que você esteja completamente convencido, a meditação sobre a impermanência faz com que você pratique com uma diligência que lhe protege como uma armadura; depois, ela lhe conduz a praticar com diligência na ação; no fim ela lhe ajuda a praticar com uma diligência que é insaciável.
- Citação de PATRUL RINPOCHE no livro Palavras do Meu Professor Perfeito. 

terça-feira, 3 de julho de 2012

A GURU IOGA



A abordagem universal que resume todos estes aspectos é a meditação sobre o lama pessoal como a própria corporificação de Guru Rinpoche. Guru Rinpoche, neste caso, não deve ser encarado como uma figura histórica apenas, quer dizer, como um indivíduo que apareceu após o Buda Sakyamuni neste nosso tempo e espaço particulares. A essência verdadeira de Guru Rinpoche antecede Buda Sakyamuni em diversas eras. Este fluxo mental iluminado que é o fluxo mental iluminado de Guru Rinpoche é a expressão da união da compaixão, bênçãos e sabedoria inatas de incontáveis Budas desde eras passadas sem princípio, todos concentram-se neste fluxo mental único que é o fluxo mental do grande mestre Guru Rinpoche.


Quando consideramos o Budadarma como dividido em ensinamentos de sutras e tantras, os ensinamentos que hoje conhecemos como budismo são os que foram proferidos e ensinados pelo Buda histórico, Sakyamuni. Num sentido amplo, contudo, os ensinamentos do Budadarma, e em especial os ensinamentos do caminho do mantra secreto, não se limitam apenas à expressão deste único buda. É com esta visão que podemos entender porque a atividade de Guru Rinpoche é considerada tão universal e tão abrangente. Onde quer que os ensinamentos do Vajrayana tenham sido dados no passado, ou estejam sendo dados, ou venham ainda a ser dados por qualquer Buda, onde quer que um professor espiritual esteja transmitindo estes ensinamentos, a essência de Guru Rinpoche estará corporificada ali: naquele Buda, naquele professor, naquele lama. Em diversos reinos e diferentes universos, com nomes e formas variadas, as manifestações de Guru Rinpoche apareceram e continuarão a aparecer em número incontável. Há uma grande quantidade de referências na literatura tradicional atestando esta exibição multifacetada da atividade de Guru Rinpoche. 
- PENOR RINPOCHE (1932 -  2009) - www.palyul.org